Travete

Quanto Cobrar por Peça de Costura: Como Calcular o Seu Preço

Não existe preço de tabela para quem costura por peça. Existe uma conta, e ela sai do seu custo e da sua produtividade.

A conta tem três partes: quanto custa uma hora da sua oficina, quantas peças você faz nessa hora e quanto de margem você precisa. O resto é aritmética.

Esta página ensina a conta inteira, com um exemplo fechado até o preço final. Ela não publica tabela: as faixas de preço praticadas no mercado estão em outra página, e servem para você conferir se o seu número está no mundo — nunca para substituir a conta.

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Ivan

Trabalhou em uma oficina de travete e caseadeira. Escreve sobre pagamento por peça e a rotina de quem costura para a marca dos outros. Sobre o autor.

Por hora ou por peça? Depende de quem é você

Se você procurou como calcular mão de obra de costura, provavelmente leu que o caminho é definir um valor para a sua hora, cronometrar o tempo da peça e multiplicar um pelo outro.

Esse método está certo para ateliê e está errado para facção. A diferença não é de detalhe: é de unidade de cobrança.

O ateliê atende pessoa física, uma peça de cada vez, e cada peça é um problema diferente. Cobrar pelo tempo faz sentido porque o tempo é imprevisível e o cliente aceita pagar por ele.

A facção costura para a marca dos outros, em lote, sempre a mesma operação repetida centenas de vezes. Ali o cliente não compra o seu tempo: compra peça costurada. Ele quer saber quanto custa a peça, e quer o mesmo valor no lote inteiro.

A hora não sai da conta — ela muda de lugar. Na facção o tempo é insumo do seu cálculo interno, para você saber se o valor por peça paga. Nunca é o que você apresenta ao cliente.

Quem inverte isso descobre tarde: aceita um valor por peça achando que é bom, e só no fim do lote percebe que a operação levou o dobro do tempo que cabia naquele preço.

Há ainda uma consequência que só aparece com o tempo. Cobrando por peça, quem ganha com a velocidade é você. Se a costureira melhora e passa a fazer mais peças na mesma hora, o valor combinado continua o mesmo e a sua margem sobe. Cobrando por hora, esse ganho vai todo para o cliente.

Os quatro componentes do preço por peça

Antes da conta, saber o que entra nela. Cada componente abaixo vem com como medir, não com quanto vale — quanto vale depende da sua oficina, e é isso que a conta vai descobrir.

1. Tecido e matéria-prima

Na facção, normalmente não é seu. A marca manda o corte e o tecido nunca passa pelo seu caixa, então ele não entra no seu preço.

Isso muda se você recebe o rolo e corta, ou se assume perda de tecido por defeito de costura. Nos dois casos vira custo seu e precisa estar combinado por escrito, com a tolerância definida. Como medir: consumo por peça, não do lote — se você só sabe o do lote, divida pela quantidade.

2. Aviamentos

É o componente que mais gera discussão no primeiro orçamento, porque depende inteiramente do combinado. Linha, agulha, botão, zíper e etiqueta às vezes vêm com o lote e às vezes são por sua conta.

Como medir o que é seu: rateie por peça. Linha entra como fração de cone — se um cone rende cinquenta peças, é dois centésimos de cone por peça. Agulha quebrada e óleo de máquina entram do mesmo jeito, rateados pelo volume do mês.

3. Mão de obra

Não é o salário dividido por peça. É o custo da hora da sua oficina, que inclui salários com encargos, o seu pró-labore e o tempo de quem não costura mas trabalha: quem confere, embala e leva.

Como medir: some o custo do mês e divida pelas horas produtivas. Horas produtivas são bem menos que as horas em que a oficina fica aberta — troca de lote, regulagem de máquina, conferência e limpeza ocupam a jornada e não produzem peça.

4. Custos indiretos

Aluguel, energia, água, internet, contador, manutenção e a reserva para trocar máquina quando ela morrer. A reserva é a mais esquecida, e é a que transforma uma máquina queimada em emergência financeira.

Como medir: o jeito mais seguro é jogar tudo isso dentro do custo da hora, no componente anterior, em vez de somar de novo no fim. É aí que mora o erro mais comum da categoria — contar aluguel e energia duas vezes, uma no custo da hora e outra como "custo fixo" no final, e chegar num preço alto demais que perde o cliente.

A conta completa, do zero ao preço

Os valores abaixo são redondos e de exemplo, escolhidos para a conta ficar fácil de acompanhar. Não são referência de mercado e não devem ser copiados: troque cada um pelo seu.

  1. Some o custo do mês da oficina. Salários com encargos, pró-labore, aluguel, energia, internet, contador, manutenção e reserva de máquina. No exemplo: R$ 16.000,00 por mês.
  2. Divida pelas horas produtivas do mês. No exemplo, 160 horas. Custo da hora: R$ 100,00.
  3. Meça quantas peças você faz nessa hora, nessa operação. No exemplo, 50 peças por hora. Mão de obra por peça: R$ 100,00 ÷ 50 = R$ 2,00.
  4. Some só os insumos que são seus. No exemplo, linha e agulha rateadas dão R$ 0,20 por peça. Se o aviamento vem com o lote, aqui é zero. Custo total: R$ 2,20 por peça.
  5. Aplique a margem sobre o preço, não sobre o custo. Para 30% de margem: R$ 2,20 ÷ 0,70 = R$ 3,14 por peça. É esse o número que você leva para a negociação.

Num lote de 500 peças, esse preço dá R$ 1.570,00, e a operação ocupa 10 horas de oficina. Repare que a conta responde de graça uma pergunta que costuma ficar no escuro: se o cliente oferecer um valor por peça abaixo de R$ 2,20, o lote sai do seu bolso.

O passo 3 é o único que exige medir de verdade. Não estime: cronometre uma hora cheia de trabalho normal, com as paradas que existem de fato, e conte as peças no fim.

Margem sobre o preço não é margem sobre o custo

Este é o erro silencioso mais caro da categoria, e quase ninguém explica. Somar 30% ao custo não dá 30% de margem.

Usando o mesmo custo de R$ 2,20 por peça do exemplo acima:

Como você faz a contaPreço por peçaSobra por peçaMargem real
Somar 30% ao custo (2,20 × 1,30)R$ 2,86R$ 0,6623%
Margem de 30% sobre o preço (2,20 ÷ 0,70)R$ 3,14R$ 0,9430%

A diferença é de R$ 0,28 por peça. Parece pouco até multiplicar: no lote de 500 do exemplo, são R$ 140,00 que existiam e você não cobrou. Num ano de lotes parecidos, é o valor de uma máquina.

A regra prática é curta: divida pelo que sobra, não multiplique pelo que você quer. Para 30% de margem, divida por 0,70. Para 40%, divida por 0,60. Para 25%, por 0,75.

Vale dizer o que essa margem é. Ela não é lucro no bolso — é o que sobra para pagar imposto, cobrir o mês fraco, absorver o lote que voltou para retrabalho e sustentar a reserva de máquina. Margem apertada não quebra a oficina no mês bom; quebra no primeiro mês ruim.

Por que a mesma operação vale diferente em cada peça

Aqui está a regra que nenhuma tabela genérica registra, e é a que separa quem já esteve numa oficina de quem nunca esteve.

Uma calça leva travete em vários pontos: passante, bolso, braguilha. Ninguém conta ponto por ponto na hora de pagar ou de cobrar — o valor é por peça, e ele já embute quantos pontos aquela peça leva.

Como a quantidade de pontos muda de modelo para modelo, a mesma operação, na mesma máquina, com a mesma costureira, vale diferente em peças diferentes. Calça cargo tem mais bolsos que calça básica, então leva mais travete e vale mais por peça. Bermuda leva menos e vale menos.

A consequência prática é direta: a sua tarifa é por referência, não por operação. Um valor único de "travete" para todo modelo que entra na oficina calcula errado por construção — você ganha nas peças simples e perde nas complicadas, e como as complicadas costumam ser as de lote grande, o saldo tende a ser negativo.

Isso também explica por que refazer a conta a cada referência nova não é preciosismo. É o passo 3 do cálculo: peças por hora muda quando a peça muda.

Quando aumentar o preço

Reajuste não precisa esperar o ano virar. Estes são sinais concretos de que o valor combinado parou de pagar:

Perguntas frequentes

Cobro por hora ou por peça?

Por peça, se você é facção. A hora entra do seu lado da conta, para saber se o valor por peça paga, e nunca no que você apresenta ao cliente. Ateliê que atende pessoa física é o caso oposto: ali cobrar pelo tempo faz sentido.

Como precifico uma peça que nunca fiz?

Faça uma amostra pequena antes de fechar o valor do lote e cronometre. Sem medir, o passo da produtividade vira chute, e é justamente ele que decide se o preço paga. Se o cliente tem pressa e não dá para amostrar, combine um valor provisório e a revisão depois das primeiras cem peças.

O cliente pediu desconto no lote grande. Aceito?

Depende de o lote grande baixar o seu custo, e às vezes ele baixa mesmo: menos troca de referência e menos regulagem de máquina significam mais peças por hora. Refaça o passo 3 com a produtividade do lote grande e veja quanto de desconto cabe. O que não se faz é conceder desconto sobre um custo que não mudou.

Quanto de margem é razoável?

Não existe número único, e desconfie de quem der um. O que dá para dizer é o critério: a margem precisa cobrir imposto, o mês fraco, o retrabalho e a reserva de máquina, e ainda sobrar. Se a sua conta não fecha nem no mês cheio, o problema não é a margem.

Como reajusto sem perder o cliente?

Avisando antes, com o motivo concreto e por escrito. Reajuste explicado — mudou o combinado do aviamento, subiu o custo da hora, a referência nova leva mais operações — é conversa de fornecedor. Reajuste sem explicação, no meio de um lote, é o que faz cliente procurar outra oficina.

A conta fica mais fácil com as duas ferramentas

Depois de chegar no valor, ele precisa virar dinheiro no fim do mês. A planilha que faz esse cálculo guarda a tarifa por referência e por operação, lança a produção de cada costureira e fecha o pagamento do período — é a mesma lógica desta página, já montada.

E antes de tudo isso vem a ficha técnica com o custo da peça, onde a referência ganha nome, sequência de operações e o valor combinado. É de lá que sai a tarifa que a planilha usa.

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